Coloquei na cabeça em fazer uma viagem até o Chile...de moto! (Uai... o título da página é Buenos Aires...) CALMA!
Minha filha Luísa (7 anos) ficou transtornada.
Como assim? Chile? atravessar a Cordilheira dos Andes de moto... As pessoas se perdem lá e têm que comer carne humana, sabia?
Bom. Minha filha já tinha assistido ao filme VIVOS que conta a história do avião que levava o time de Rugby do Uruguai que caiu na cordilheira...(filme: VIVOS de 1993).
Depois de um bom papo, ela acostumou com a idéia e até passou a dar palpites no planejamento...
O PLANEJAMENTO:
1) Escolha da moto:
Esta é a moto... uma Yamaha Virago 535, ano 2.001... é o que temos para o momento...
2) Percurso:
Foi feito assim. Abri o Google digitei São José dos Campos/SP a Viña del Mar/Chile... pronto, em 30 segundos já estava definido o percurso...
3) A preparação:
Como nunca havia feito uma viagem longa, resolvi fazer uma viagem teste. Ir de São José dos Campos/SP até a Argentina.
Viagem de São José dos Campos/SP a Buenos Aires... 4.500,00 km ida e volta.
Sair do Brasil pelo Chuí e voltar por Uruguaiana.
O mais importante de tudo nestas horas... é possuir um bom mapa...
Partida: 5/7/2014 - sábado. Saí de São José dos Campos as 6 horas da manhã. Minha intenção era chegar a capital de Santa Catarina (790 km).
Cometi meu primeiro erro. Insisti em levar uma mochila nas costas.
Quando cheguei em Joinville (620 km), estava sentindo muita dor nas costas e não quis forçar logo no primeiro dia... procurei uma pousada e fiquei por ali mesmo.
Segundo dia.
No planejamento feito em casa, no segundo dia teria que chegar em Rio Grande, no Rio Grande do Sul, a 934 km de Joinville, porém, como no primeiro dia esse planejamento já tinha ido por água abaixo, tinha duas opções:
1) Ou forçava pra rodar mais 940 km pra cumprir o cronograma ou
2) Rodava tranquilo e via até onde dava pra chegar
Fiquei com a segunda opção e rodei 726 km até Camaquã/RS... 210 km fora do planejado, mas Blz...
Chegando em Porto Alegre
3º dia - Uruguai:
Hoje iria cruzar a fronteira com o Uruguai de qualquer jeito...
Cheguei por volta das 8 horas em Rio Grande/RS. Pra chegar até Santa Vitória do Palmar, penúltima cidade brasileira antes do Uruguai, seriam aproximadamente 200 km... minha moto é quase perfeita... o quase fica por conta da autonomia baixa, porém, no posto em Rio Grande, fui informado que havia um posto a uns 100 km... fui na fé.
pampas gaúchos (quase em Chuí)
entrada da cidade de Santa Vitória do Palmar-RS
Cheguei em Chuí na hora do almoço, porém não tinha banco Santander na fronteira... tive que voltar até Santa Vitória do Palmar, sacar a grana pra fazer o câmbio... 700 reais = 7.000 pesos uruguaios (tô rico!). entre Santa Vitória do Palmar e Chuí/RS
A primeira impressão que tive do Uruguai foi a melhor possível, e essa impressão iria ficar até minha saída, pois se trata de um belo país, com belas paisagens, povo educado e que aparentemente gostam de brasileiros.
O atraso se deu por falta de um banco Santander em Chuí, pois, tanto o Câmbio como a aduana foram muito tranquilos. Na verdade entrei no Uruguai sem perceber. Quando comecei a ler placas em espanhol foi que caiu a ficha. Voltei até a aduana para apresentar o passaporte. Só o RG bastava porém, fiz questão do passaporte.
Cheguei em uma cidade uruguaia chamada Castillos a 75 km da fronteira. Pousada la Vieja
4º dia - BrasilxAlemanha:
Objetivo Montevidéu. A apenas 250 km de Castillos.
Dia 08/07/2014 - Iria assistir ao jogo Brasil e Alemanha em Montevidéu.
O dia já não começa bem. Levanto as 5 horas. Um frio de 1,7ºC. Ponho a armadura, acomodo a "traia". Um beijinho na foto da Lulu e da Lili que trago grudada na bolha. Viro a chave, aciono o motor e... nada!
Tudo bem. Nunca aconteceu mas sempre tem a primeira vez. Tento de novo e.... nada!
Putaqueopariu!
Mexe nos fios, vira a chave e nada. Tiro o banco pra ver os cabos da bateria, tudo ok. Tento novamente e nada! Carai...
Lembro de ter visto um posto de gasolina próximo. Empurro a moto até lá. Fico sabendo que tem uma oficina ao lado do posto, porém só abriria as 8.
Compro jornal "El País" pra ler as notícias da copa, afinal hj teria jogo da seleção...
Carga rápida na bateria (por 300 pesos) e pego novamente a estrada as 9:30... mecânico Uruguaio
Chego em Montevidéu na hora do almoço. Almoço tranquilo e depois saio pra procurar uma pousada (las Gaviotas).
Tomo banho, coloco minha camisa da seleção, pego minha bandeira e saio pra procurar um bar pra assistir ao grande jogo.
Chego ao bar Sallus, na praia de Malvin bem na hora do hino do Brasil. Que beleza. Peço uma cerveja (Ziellertal) e antes da cerveja terminar já está 5 a zero... tomanocu!
5º dia - Argentina:
objetivo: Buenos Aires...
Como assim, ir a Buenos Aires depois do 7x1?
Pois é. É como diz o ditado... Já que tá no inferno... abraça o capeta...
Chego em Colônia del Sacramento para fazer a travessia de balsa até a Argentina.
5 horas após estava na capital do tango...
Porém, conheci um motociclista escocês o Douglas (doug) que estava viajando a alguns meses pelas Américas. Havia saído do Canadá e seguia até Ushuaia, extremo sul da Argentina na terra do fogo.
Ficamos conversando em uma mesa junto com um Uruguaio (Felipi) e um Argentino (Miguel). Muito bom. Três idiomas, quatro países. Com cerveja chilena (cerveza Austral)... era a preferência do escocês. Resolvi experimentar pois a única cerveja brasileira que tinha a bordo era Schincariol...
Fiquei apenas algumas horas na Argentina... passei pela casa Rosada, pelo estádio do Boca e me mandei... os caras estavam muito chatos...
Mendigo Uruguaio:
Tienes un cigarrillo para mí? (Sr Juan, mendigo uruguaio),
em pé, na porta de um comércio que se assemelha as nossas padarias (paneteria).
Respondi que não tinha cigarros porém, se fosse necessário eu poderia comprar para ele.
-- Brasileiro, prefiro então que me dê o dinheiro.
-- quanto custa um maço de cigarros? perguntei.
-- um "paquete de cigarrillos" custa 60 pesos.
-- Peguei 60 pesos (6 reais) e entreguei ao mendigo fumante.
-- Já tomou café? Perguntei.
-- Me desculpe, não entendi a pergunta.
-- Has desayunado?
-- Na verdade sim, respondeu.
-- Bom, então eu vou desayunar (em bom portunhol) boa sorte!
-- Me chamo Juan e estou sempre por aqui... caso precise.
-- Me chamo Fábio, obrigado pela conversa.
Tomei meu desayuno, saí de moto pela Rambla Wilson e segui até a Rambla Argentina, onde voltei a ver o Sr Juan, caminhando pela calçada... olhando o mar...
esperando o posto abrir na Argentina La Bombonera
6º dia - A volta:
Frio e chuva, marcaram o início da volta. O norte do Uruguai e o extremo sul do Brasil estavam literalmente debaixo d'água. A foto mostra onde a vaca foi parar depois da enchente em São Borja/RS...
No mais, a volta foi tranquila. Gasto de 2.000 reais sendo 600 de combustível. Pra não dizer que não gastei com manutenção, troquei o óleo em Montevidéu e na volta, em São Paulo estourou o cabo do velocímetro.
Bom. O teste estava realizado... rodei 4.500 km tranquilo. Senti o limite da moto e o meu próprio.
Desconsiderei muita besteira que o pessoal fala sobre viajar de moto pelo mercosul...
Agora, é me preparar para a viagem ao Chile...